André Dread é Okpara em Gênesis

O ator nascido e criado na Cidade de Deus fala sobre o desafio em viver um nobre do Egito em sua estreia na Record

Por: Redação

O ator André Dread, é “cria” da CDD e possui um currículo com diversas espetáculos teatrais, filmes e publicidade. O ator que teve sua formação nas ONGs Cufa e Nós do Morro que são referências no país, ganha cada vez mais espaço na teledramaturgia. Ele fala com exclusividade da sua estreia na Record em Gênesis, militância, representatividade e planos para o futuro. Confiram!

Como surgiu o convite para fazer a novela Gênesis?

O agente Johnnys Machado entrou em contato comigo dizendo que a produtora de elenco Marina Frauches tinha curtido meu material. Mas que se eu topasse pegar o trabalho, teria  que sofrer algumas mudanças no visual pra compor o personagem.  Então pedi um tempo para discernir tudo e fazer uma série de ligações, pois estava sendo sondado pra fazer uma outra novela, mas ainda não tinha fechado todos os detalhes, tive que colocar na balança. Topei fazer!

É a sua estreia na Record, embora tenha feito outras participações na tv com em “Suburbia”, A “Regra do Jogo”. É diferente fazer um personagem bíblico? Teve algum desafio?

Verdade! É minha estreia na Record. Eu cheguei a fazer alguns testes na emissora para as novelas bíblias, a linguagem era bem complexa, eu vivia me corrigindo, mas confesso que Gênesis foi muito tranquilo e divertido de fazer. O personagem é um nobre egípcio, tive que encarar a mudança no visual, raspar cabeça, barba, tinha toda uma caracterização pra maquiar as tatuagens, mas foi de boa, não tenho nenhum  problema em mudar o visual para o personagem. Eu entro por inteiro no processo! Tinha que ter  todo um cuidado com a postura e a forma de colocar o texto. Sempre quis fazer um personagem que me desafiasse, o Okpara foi um deles. Ele é misterioso, observador e muito vaidoso.

O que o público pode esperar do seu personagem?


Confesso que é um divisor de águas na minha carreira. Não costumam dar esses tipos de papéis para negros, algo que acho muito ruim. Tenho certeza que o público vai curtir muito ver um negro nesse lugar, de um nobre egípcio, acho que a record está dando o start nisso, espero que as outras emissoras também revejam.
Eu sou ator, eu posso fazer o personagem que eu quiser, desde que receba a oportunidade devida e não fique só no estereótipo.
Não tenho problema algum de pegar um personagem marginalizado, desde que tenha uma história legal.

Fotos: Sérgio Santoian 

Quais são os próximos projetos após novela?

Já tenho um outro convite para tv sendo conversado,  gravo um filme em março e tem alguns projetos sendo finalizados para streamming. 

Você é nascido e militante da Cidade de Deus com os projetos Frente CDD e Favela Preta como surgiu seu engajamento nas causas sociais? 

A Cidade de Deus concentra um número muito grande de pessoas que trabalham informalmente.  Com a chegada da Covid 19 muitas pessoas ficaram desempregadas ao ponto de não terem o que  comer. Sabíamos que os pobres, pretos e favelados seriam os mais afetados por não terem o básico dentro de casa. Pedimos pra que as pessoas ficassem em casa, mas como ficariam com a comunidade faltando água, sem saneamento e outras coisas básicas e necessárias para se protegerem!? Com a ausência do Estado e do poder público, o terceiro setor teve que meter a mão na massa, então criamos a Frente Cdd pra de alguma forma minimizar o impacto do vírus na Cidade de Deus.
Graças a Deus conseguimos ajudar mais de 10.000 famílias impactadas! Mas tivemos mais de 23.000 doações entregues. Dentre eles kits de higiene, limpeza e cestas básicas.

Fotos: Sérgio Santoian 

O seu personagem na Record é um nobre. Como você enxerga essa possibilidade de viver um personagem que foge dos estereótipos que muitas vezes tentam colocar os negros?

Falta muita representatividade ainda nos veículos de comunicação, não só na tv, mas também na publicidade.
Sempre quis ter a  oportunidade de fazer um médico, um advogado, mas nunca fui chamado pra nada parecido. Na publicidade cheguei a fazer alguns empresários e tô aqui fazendo um nobre, precisamos de ter mais negros inseridos e ocupando esses papéis de destaque. Precisamos de diretores negros, roteiristas negros, publicitários, talvez assim, mude o cenário que por muitos anos só teve brancos ocupando papéis de destaque.

Você também é produtor do instituto Arteiros na Cidade de Deus. Como vc analisa a arte feita dentro da comunidade?

Eu sempre digo que a arte me salvou
antes de fazer teatro. Eu era um cara introspectivo, sem perspectiva ou vontade de crescer. A arte trouxe um novo olhar, um novo rumo pra minha vida, uma esperança que as coisas podem ser diferentes, e foi muito importante pra minha construção pessoal e profissional.
Aprendi tudo que sei sobre arte dentro de duas comunidades, dentro de dois projetos sociais extremamente importantes: Cufa e Nós do Morro. Sou fruto dessas duas árvores genealógicas. Acredito muito no poder de transformação que a arte tem. Hoje sou coordenador de produção do instituto Arteiros que além de trabalhar com o eixo de arte também trabalhamos com educação e direitos humanos.

Fotos: Sérgio Santoian